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Cecília Honório: «O Bloco de Esquerda nunca será e nunca foi muleta de nenhum partido»

Cecília Honório é a cabeça de lista do BE pelo distrito de Faro

barlavento – Para o Bloco de Esquerda, manter o mesmo número de deputados é uma derrota...

Cecília Honório – O Bloco vai aumentar. Temos todos os sinais nesse sentido e estamos convictos de que elegemos um deputado no Algarve.

O Bloco de Esquerda é um partido de alternativa que ganhou a confiança popular. Vamos para estas eleições com a certeza de que aumentamos o número de deputados.

b. - Esteve muito ligada às questões do ensino no Parlamento. Como analisa a política do actual Governo nessa área?

C.H. - Estive ligada ao ensino através das intervenções no Parlamento e como fundadora do Movimento Escola Pública, pela igualdade e democracia.

Diria que o Partido Socialista vendeu a imagem de que estava a qualificar a escola pública e deixou-a refém de um modelo que não é o mais qualificador.

É um modelo assente numa cadeia de comando, entre o director da escola e aquela camada de professores de primeira categoria.

Algumas destas reformas, quer ao nível do estatuto da carreira docente, da avaliação e a gestão das escolas, foram feitas dentro de um perfil que não é o da valorização da escola democrática e de forma incompetente.

É um modelo que não serve a escola pública, que não garante a igualdade de oportunidade. O autoritarismo, a incompetência e o perfil de reformas não servem aquilo que são os grandes desafios da escola pública.

b. - Estamos a atravessar uma crise, há o aumento do desemprego e da pobreza. É possível contrariar este quadro?

C.H. - É urgente contrariar este quadro. É entendimento do Bloco de Esquerda, e fazemos essa leitura há algum tempo, que esta crise é uma crise do sistema internacional, mas que em Portugal é suportada e aprofundada pelas políticas de Sócrates, muito claramente. É uma crise sobre a crise.

Isto é um país adiado, onde há sinais de atrasos profundos. Estas políticas, em que o Estado é uma arena onde os interesses privados se impõem com tanta facilidade, onde há tantas oscilações nos investimentos públicos, agravaram a crise nacional de uma forma tão profunda que teremos dificuldades em sair dela. Mas vamos sair e, para isso, o Bloco de Esquerda tem um programa, que se assume como um programa de Governo, e onde temos medidas claras para sair da crise.

b. - O Bloco aponta na contratualização com as empresas para a criação de postos de trabalho. O Estado vai subsidiar as empresas?

C.H. - Temos várias propostas nesta área. Em primeiro lugar, aqui para a região do Algarve, temos o emprego social, uma prioridade em que o Estado tem que estar em articulação com as regiões e as autarquias.

A pergunta que se faz é se as pessoas que trabalharam uma vida toda têm reformas justas, têm os cuidados de saúde? Se as nossas crianças têm creches públicas?

Ou se têm uma oferta pública de pré-escolar com dignidade? Quando o Governo vem falar destas pseudo-medidas natalistas acha que é fácil para um casal com rendimentos baixos ou médios ter uma criança e depois ter de a deixar numa instituição onde deixa o seu vencimento?

A política de emprego social é uma prioridade e aqui no Algarve há muitas áreas por pegar, desde o turismo rural, aos equipamentos que estão por construir ou por dinamizar.

Há evidentemente a necessidade de apoiar a formação de micro-empresas, que dão garantias de auto-emprego. Temos medidas muito claras relativamente a esta debandada de empresários com lucros e que resolvem ir daqui para fora.

b. - As micro-empresas são penalizadas com o actual sistema de governação?

C.H. - São altamente penalizadas. Tem que ser feito um novo quadro para as micro-empresas com esta vertente de aliança com a criação do auto-emprego, com bonificações que podem ser a vários níveis nomeadamente nas instalações.

Defendemos uma política de investimento e de apoio a estas estruturas de organização e de produção.

b. - Os impostos devem ou não descer?

C.H. - O Bloco de Esquerda tem uma proposta alternativa para os impostos. É uma pergunta demasiado simplista.

As nossas propostas para a taxação são diferentes com a criação de um novo escalão do IRS que faça com que as pessoas com mais rendimentos paguem o que têm que pagar.

b. - Uma das propostas do Bloco é aumentar o subsídio de desemprego, o que acarreta mais despesa para o Estado...

C.H. - Evidentemente. Cria mais despesas, mas também é verdade que as pessoas estão muito desprotegidas e a taxa de cobertura do subsídio de desemprego diminuiu com as políticas de José Sócrates.

É o Estado que tem maior capacidade de investimento. É o regime de tributação, nomeadamente nos escalões de IRS, que permite uma nova política de redistribuição da riqueza.

b. - O Serviço Nacional de Saúde deve sofrer alterações ou não?

C.H. - Fomos sempre muito combativos nas questões que têm a ver com serviços públicos. Elegemos a educação e a saúde como as grandes linhas da nossa estratégia de programa de Governo e o Serviço Nacional de Saúde não pode ficar refém dos interesses privados. É o caso por exemplo, aqui na região do Algarve, do Hospital Central, que foi prometido há quatro anos, e agora volta a ser anunciado. José Sócrates tem muito disto, anúncio sobre anúncio, mas com uma política de acordo entre os privados e o Estado, de tal forma que o Estado sairá seriamente lesado se isto for para a frente.

b. - Caso não exista uma maioria no Parlamento, qual vai ser o posicionamento do Bloco de Esquerda?

C.H. - O Bloco de Esquerda responde perante o seu programa e o seu eleitorado. Essa é a responsabilidade de uma esquerda alternativa. O Bloco de Esquerda nunca será e nunca foi muleta de nenhum partido político. Evidentemente que já muitas propostas do Bloco foram aprovadas no passado e em todas as propostas que tenham a ver com a melhoria da vida das pessoas é evidente que tomaremos posição favorável. O Bloco de Esquerda não prescindirá alguma vez dos seus compromissos de programa. Esta é a nossa bússola, não há outra.

b. - A regionalização...

C.H. - O Algarve reclama pela regionalização e faz muito bem. Ela é necessária, é mesmo urgente, se quisermos pensar num modelo de desenvolvimento alternativo. A leitura que nós fazemos da regionalização é de que ela só pode ser feita com órgãos eleitos e com uma soberania verdadeiramente democrática. Não enchemos só a boca com a regionalização, estamos de acordo com ela, pois é a forma de constituir uma identidade para a região, um modelo sustentável de desenvolvimento, mas o processo tem que ser garantidamente democrático, com órgãos soberanos eleitos pelas pessoas. Estaremos muito atentos aos conteúdos dessa regionalização.

b. - Sobre o bloco central...

C.H. - As pessoas estão fartas do partidarismo do bloco central e desta alternância entre estes dois grandes partidos com as devidas diferenças, que as pessoas bem conhecem.

b. - Como algarvio, convença-me a votar no Bloco de Esquerda...

C.H. - O Bloco tem propostas para a região. É nas propostas que trabalhamos. Sou uma aposta na relação entre o Bloco nacional e o trabalho que é feito a nível regional. Tenho um trabalho político feito em prol da escola pública que talvez seja um mote para poder votar em mim.