Nove anos, tempo instantâneo na existência do planeta ou mesmo da humanidade, mas um tempo de bruscas, inesperadas e enormes alterações na economia mundial e até nas palavras dos governantes e dos especialistas do sistema. Com uma constante tremendamente trágica: o agravamento das condições de vida de milhões de pessoas em todo o mundo, em alguma regiões e países, situações generalizadas de fome, de completa desarticulação social, de centenas ou milhares de mortos provocados ora pelos crimes da globalização neoliberal, ora pelos das guerras do império.
Tempo curto demais para ser possível a mudança necessária. Mas suficiente, estranhamente suficiente, para mudarem as palavras. Quando surgiu, o FSM era apenas protesto de alguns à escala global, ponto de encontro de ONGs e movimentos que não podiam deixar de agir, no seu local ou no mundo, por uma vida menos má para si ou para os outros. Aos dominadores do planeta e aos seus bobos e capatazes, o FSM levou a sorrisos irónicos, palavras trocistas e pauladas nas costas dos mais atrevidos. Desde logo a algumas mortes, pois esses senhores gostam de prevenir-se e de mostrar que de pequenino se torce o pepino… E eles sabem, num saber de experiência feito, como é necessário o cacete, quando a brandura, a manipulação e a miséria já não chegam.
Mas hoje, se não o cacete, a ironia é outra. É vê-los como mudam as palavras para que a coisa continue. De Bush a Obama, como mudam as palavras… De Greenspan a Soros, de Blair a Brown, de Cavaco a Cavaco, de Sócrates a Sócrates… como mudam as palavras! Ouvem o senhor do “menos estado, melhor estado” tão preocupado que o governo não descure os pobrezinhos? Ouvem o senhor do défice, da privatização da GALP, da EDP, da ANA e até da CGD, defender o Estado Social? Os banqueiros fraudulentos, o Amorim e o Van Zeller, ouvem e abençoam… Eles lá sabem porquê.
Foram outras as palavras e as vontades no fórum de Belém do Pará. Não o Belém do deus menino, amesquinhado pelo deus cruel do Vaticano fundamentalista e retrógrado, eternamente enganando a redenção celeste, mas de todos os credos e idiomas solidários, dos índios latino-americanos, à esquerda europeia agnóstica ou ateia quanto pode. Como foram diferentes as vozes dos 4 presidentes (Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai) da desejada pátria grande, bolivariana, e mesmo do presidente anfitrião, embalado num momento de saudade proletária.
Serão essas vozes os sons da revolta ganhadora? É cedo para sabermos. Ainda é demasiado forte, embora “psicologicamente” abalado, o poder do império e do capital em todo o planeta. São globais as suas redes e o seu tresmalho noutros poderes que emergem pode levar a novas guerras de proporções desconhecidas. Mas a frescura dessas vozes e de todos os sons do mundo no Fórum do Pará, é esperança e alento para os que querem e sabem que outro mundo é possível.
Sem falsa modéstia, foi essa esperança e alento que resultou dos debates, das decisões e até dos erros do Bloco de Esquerda presentes na sua 6ª Convenção, no passado fim de semana. Assim continuem a fazer caminho as convergências na luta popular e nas esquerdas, contra o neoliberalismo, bronco ou transfigurado, na defesa dos serviços públicos e da justiça social, efectiva e não socratiana, na construção dum país solidário e defensor da natureza.
10/02/09