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Já não sei o que vos diga!

 

Alguns dos leitores do artigo de há quinze dias comentaram-no muito desagradados e até com certa truculência. É natural quando as opiniões divergem e os tempos são difíceis.

 

Esses comentários exprimem o sentimento e o modo de pensar de bastantes pessoas. Por isso, na medida do meu fraco saber, aqui lhes deixo uma réplica e uns conselhos, sobretudo aos seus aspectos mais extremos.

 

“Não há crise... Não há desemprego... Há sim, falta de vontade de trabalhar. Acabem com o subsídio de desemprego, liberalizem a oferta e a procura para que os bons tenham emprego e os maus tornem-se desempregados...” Assim, sem tirar nem pôr. Em menos de três linhas um programa completo para voltarmos ao tempo da escravatura. Mas, nos tempos que correm, só mesmo como piada de mau gosto. Doutro modo, quem assim fala, ou é porque canta de galo e nunca sentiu na pele as dificuldades do dia a dia; ou se as sentiu tem-nas resolvido nos negócios do salve-se quem puder; ou então não percebe nada dos porquês da sua tristeza de vida.

 

Não há crise? Perguntem a mais de 80% dos aposentados que recebem pensões inferiores ao salário mínimo nacional, ou aos 18% que recebem a pensão mínima. Ou ao milhão e 600 mil portugueses que ganham menos de 600 euros. Aos bem mais de 2 milhões que vivem abaixo do limiar de pobreza. Àquele casal com uma filha bébé, ambos desempregados, que para não deixarem de pagar a renda da casa vão todos os dias buscar comida ao Centro “Porta Amiga”. Digam-lhes na cara que se não têm emprego é porque não querem trabalhar.

 

Digam o mesmo aos 10 mil trabalhadores que, em média, foram despedidos em cada mês de 2008 no nosso país. Ou aos 14 700 que, só em Janeiro deste ano, tiveram igual destino. Vão dizê-lo aos 152 da AP-Amoníaco, aos 200 da textil Coindu, aos 680 da Aerosoles, aos 1900 da Qimonda, que, desesperados, lutam contra o despedimento já anunciado.

 

Se não querem ir tão longe, vão ter com os 38 da Indal, aqui em Faro, ou os 43 da Timar em Tavira, os 58 da Unicer em Loulé, os 180 da Bela Olhão e mais uns milhares espalhados pelos hotéis e pelo comércio da região, e atrevam-se a dar-lhes os parabéns porque satisfizeram, ou estão em vias de satisfazer, a falta de vontade de trabalhar.

 

E lembrem a todos eles, que se estão, ou vão estar, desempregados, é porque são “maus”! Terão o Amorim, o Belmiro, o Jerónimo Martins, os banqueiros fraudulentos, o Sócrates, a Ferreira Leite, a aplaudir a vossa sabedoria. Mas, desta vez, só o farão em privado, pois eles não são parvos e vêem a crise que vocês não querem ver, e sabem que ela é má conselheira...

 

Permitam que vos chame a atenção que essas eminências mudaram o discurso, ainda que seja só até ver. E que talvez esteja na hora de vocês fazerem o mesmo. Não digo os “vocês” que têm a vida difícil mas, porque raramente levantam a cabeça, pensam sempre que a culpa é do vizinho. Digo os outros, os que farejam as oportunidades e as sabem aproveitar.

 

Reparem que o raio da crise está reajustando os velhos slogans. “Acabem com o subsídio de desemprego...”, no momento actual não é a melhor táctica, é forte de mais. Os despedimentos e o desemprego estão a dar muito nas vistas. E nem metade dos desempregados recebe subsídio. Depois, Portugal é campeão da Europa nas desigualdades sociais e também não convém exagerar em demasia. Mais vale: “Estrangeiros, vão dar uma volta ao bilhar grande”, já puxa mais ao sentimento, embora seja só para enganar os portugas. Ou então: “O Estado tem de ser rigoroso: é preciso acabar com as baixas sem motivo e canalizar os subsídos de inserção para os idosos necessitados”. Este tem sempre aceitação. 

Ao usar um velho slogan, agora convém pôr um toque de imaginação: “congelem-se os salários... normais, aqueles acima do salário mínimo. E aos de topo tire-se qualquer coisa”. Fica com outra substância! 

“Liberalizem a oferta e a procura”, “Deixem o mercado funcionar à vontade”. Não! Estes agora, não. Há que dar algum tempo ao tempo. Há muita arraia miuda descontente e que consegue ver que foi precisamente a liberalização e o mercado terem tomado o freio nos dentes que deu nesta confusão. Vejam a esperteza do Sócrates a fingir que defende o Estado regulador e social.

 

Vocês não acham? Nem que a culpa seja do mercado, nem que a malta perceba, nem que haja confusão, nem que o Sócrates esteja a fingir?

 

Eh pá! Já não sei que vos diga!

 

 

10/03/09

[artigo publicado no Região Sul]