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Crise financeira - o rei vai nú

 

Numa apóteose orgíaca, exemplo magnífico da circulação sem peias dos capitais, voaram pelas principais Bolsas mundiais criando bolhas especulativas umas atrás das outras.

 

Desta vez, a praga monstruosa foi gerada na multiplicação dos créditos malparados do mercado imobiliário dos EUA. Sem qualquer controlo, estimulados pela cumplicidade irresponsável dos governantes e perante a bancarrota, pularam para a Bolsa de Xangai que em três meses subiu 50%; manipularam as “commodities” levando o preço do petróleo a valores nunca vistos; especularam com as quotações dos produtos alimentares criando uma crise dos alimentos que ainda persiste e originou fomes generalizadas em populações africanas e asiáticas.

 

Mas a febre da especulação não é apenas dos gangs vanguardistas. Todo o sistema se baba na ganância do lucro fácil e máximo. A globalização capitalista e a revolução informática põem, pelo mundo inteiro, as oportunidades de negócio à disposição de pequenos e grandes senhores do dinheiro. Também a Banca e outros fundos de investimento europeus não quiseram perder a oportunidade e compraram, só no último trimestre do ano passado, mais de 100 mil milhões de euros em produtos do crédito imobiliário americano e seus derivados.

 

Agora que estão a rebentar muitas bolhas e ao mesmo tempo, miolos e tripas do monstro ficam de fora e o cheiro é pestilento. Mas os gurus do sistema, formadores de opinião, políticos, gestores e economistas de renome, todos vivendo de lhe sugarem as chagas, afadigam-se sem descanso a ver se a doença não alastra ao corpo todo.

 

Reparem, só na cabeça do monstro: Enron (lembram-se?) falida, gestores ao fresco, pessoal despedido e sem pensões; Bancos JPMorgan, Wachowia e Morgan Stanley, sob suspeita de fraude; Citigroup multado em largos milhões por fraude bancária; Fannie Mae e Freddie Mac, as duas maiores seguradoras que movimentavam mais de 50% dos créditos americanos à habitação, nacionalizadas; Merrill Lynch, terceiro banco de investimento dos EUA, comprado pelo Banco da América; Lehman Brothers, um dos principais bancos, cujos directores receberam o ano passado 5,7 mil milhões de dolares em prémios, falido; AIG, o maior grupo segurador do mundo, nacionalizado, indo o seu presidente receber uma indemnização de 8,7 milhões de dolares.

 

Tudo isto é, provavelmente, apenas a ponta do iceberg das consequências da auto-regulação dos mercados de braço dado com a louca especulação bolsista. Mas quando o monstro rebenta, o sistema esquece as teorias e a ideologia e trata é de salvar a pele.

 

É ver o governo mais neo-liberal do mundo, que por tudo e por nada repreende e ataca outros países por condicionarem o livre funcionamento dos mercados, agora a nacionalizar bancos e seguradoras, pondo o Estado federal a intervir em força na sua gestão, cortando aqui e injectando ali milhões e milhões de dólares.

O mesmo fazem as principais instituições financeiras e governamentais na Europa e no resto do mundo, procurando como podem, pôr as barbas de molho. O Banco Central Europeu introduziu sucessivos volumes de liquidez no sistema financeiro bem acima dos 100 mil milhões de euros. Por seu lado, em meados do mês, o banco do Japão já injectara mais de 17 mil milhões de euros e o Banco da Austrália adicionou 1,5 mil milhões de dólares no sistema financeiro.

 

Porém, todas estas intervenções respeitam a sua própria natureza e em vez de tomarem medidas para eliminar a criatura, a todo o custo a alimentam para que sobreviva e eles com ela. Não se admirem pois que novas falências e novas mega intervenções ocorram, com o seu lastro de trabalhadores na rua sem pensões, de crescimento da recessão e do desemprego, que inevitávelmente atingirá o nosso país, já tão afectado pela crise.

 

Perante este cenário, seria hilariante, se não fosse tão grave, ouvir a surpreza do ministro da Finanças face ao que vem acontecendo, ou as declarações dos nossos banqueiros pondo água na fervura como se a panela portuguesa estivesse livre de lhe saltar a tampa só porque eles o desejam.

 

Nos dias de luta e polémica em torno da actual revisão do Código de Trabalho do PS, que nos traz, embrulhados na mentira e na divisão do povo, menos salário e menos emprego, lembro apenas como estaríamos hoje de pensões, se de há meia dúzia de anos para cá, os descontos dos trabalhadores para a Segurança social e os fundos de pensões já tivessem sido privatizados. 

Sem dúvida que as fraudes e os negócios sujos do BCP e dos outros bancos e seguradoras também já teríam feito eclipsar, na voragem da especulação, tais poupanças, fundos e descontos!

 

 

23-09-08

(artigo publicado no Região Sul)