Há menos de dez dias (ao que parece, uma eternidade), num gesto conjunto de exaltada nobreza, a nata da banca chegou-se à frente e anunciou que iria usar aquele aval do Estado para obter financiamento. O insubstituível Ulrich apressou-se a esclarecer que nem por sombras a coisa está tremida. Trata-se apenas de assumir um dever entre cavalheiros: mal ficariam se à boa vontade do governo respondessem com a indelicadeza de uma recusa!
Prestimoso, o ministro das finanças acrescentou que “o país dispõe de um quadro reforçado de estabilidade e segurança”, mas amor com amor se paga, pelo que o governo “não afasta o cenário de intervir e tomar posições accionistas nos bancos... para recapitalizá-los”. Porém, haja calma, “não se vê essa necessidade de imediato”.
Passada uma semana, ou nem isso (como o tempo voa!), em pleno Dia do Senhor, o mesmo ministro acompanhado do presidente do Banco de Portugal, anunciou que vai propor ao Parlamento a nacionalização do BPN para evitar a sua falência. Há mais de cinco anos, este banco vinha fazendo operações clandestinas de centenas de milhões de euros, não contabilizadas nas suas contas. Com perdas acumuladas que rondam os 700 milhões de euros, está à beira da iminente ruptura de pagamentos...
Afinal, mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo. Pior do que a mentira é o descaramento. A CGD já havia injectado 200 milhões de euros no BPN, agora querem salvá-lo da bancarrota, mas administradores e accionistas não são tocados. As graves fraudes económicas e criminais que cometeram ficam escandalosamente protegidas por detrás da não divulgação dos seus nomes, sem que sejam incriminados. Pelo contrário, são os impostos dos contribuintes que são desviados para salvar o banco, como já foi o fundo de 20 mil milhões destinado à banca em geral sem quaisquer contrapartidas ou penalizações.
As coisas não parecem ir ficar por aqui: são conhecidas as fraudes fiscais do BCP, os investimentos de risco da CGD, etc. Por isso, contando que os dinheiritos do Estado darão muito jeito no negócio, Ulrich já vem dizendo que na volta ainda se poderá comprar algum banquinho mais em baixo e fazer uma fusãozinha ou duas necessárias. E se for preciso fazer o sacrifício de outras “nacionalizações” para facilitar a operação, lá terá que ser...
Glosando a velha frase, dir-se-á que a história se repete hoje como farsa: as nacionalizações a bem do povo, regressam agora a bem do polvo!
A direita partidária, à parte os floreados de oposição, bate palmas e pede bis. À esquerda, a crítica e as propostas são bem mais sérias. Pelo lado do BE, exige-se que nem um cêntimo dos contribuintes seja gasto com essas situações da banca e que sejam antes os administradores e accionistas a pagarem os prejuízos que provocaram. Exige-se ainda, entre outras propostas, que seja imposta aos bancos a baixa das taxas de juros para aliviar a pesada carga que sobrecarrega a população.
Mas deste lado da vida o Governo já sabe ser duro e intransigente. Sócrates mostra os seus dotes no debate que esta semana se está a fazer no Parlamento em torno do Orçamento de Estado para 2009 e da revisão na especialidade do Código de Trabalho. Em síntese, são dois irmãos siameses destinados, o primeiro, a suster o défice num tecto absurdo que ninguém pela Europa se dispõe a cumprir e a transformar em recessão a quase estagnação económica que o país vem sofrendo. O segundo, a alimentar o parasitismo retrógrado das associações patronais, intensificando a exploração do trabalho e a perda salarial, aumentando o desemprego e a precariedade.
Só a resistência dos trabalhadores e os movimentos e protestos cidadãos poderão minorar os estragos desta política e baixar a sua força. Ajudará se as lutas que vão decorrer ao longo deste mês: dos professores pela defesa da escola pública e pela dignidade, da Administração Pública pela reposição salarial e dos direitos perdidos, de todos contra o Código e o Orçamento e de todo o outro protesto e descontentamento cidadão, se unificarem no objectivo comum de recusar as decisões do Governo a favor da Banca e reivindicarem justas medidas a favor do povo contribuinte e consumidor.
04/11/08
(publicado no Região sul)