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Missão impossível?

O recente congresso dos jornalistas levou-me a retomar uma velha interrogação ainda hoje sem resposta satisfatória – porque não avançam as esquerdas, políticas e sociais, um projecto comum de comunicação social?
Tanto quanto me apercebi, esta questão esteve ausente, entre os muitos problemas e importantes aspirações apresentadas e debatidas neste congresso. Tal ausência verifica-se também nas reflexões e análises que vão sendo feitas, mesmo na esquerda radical, sobre a crise do jornalismo e da comunicação social, à medida que cresce a sua dependência em relação à concentração e ao domínio por um pequeno número de grandes grupos mediáticos, serviçais dos monopólios económicos e políticos, seja a nível nacional como mundial.
Muitas das referidas análises colocam a necessidade das esquerdas saberem usar as novas possibilidades e inovações informáticas que revolucionaram os meios e as formas da comunicação social, de modo a não ficarem arredadas da sua maior capacidade de penetração e de influência em todas as sociedades, sobretudo nas camadas mais jovens. Perante a concentração e crescente influência social dos mega poderes mediáticos e políticos, acentuam a necessidade de colaboração entre os meios informativos de esquerda.
Porém, na prática, os sinais e exemplos desta colaboração são insignificantes face ao poder, ao controlo e à manipulação exercidos pela ideologia capitalista no conjunto das suas várias expressões.
As rivalidades e disputas entre estas várias expressões (elites e extremismos estadunidenses, destes contra os poderes russos ou chineses, crise europeia, brexit, ascenso das extremas direitas, etc.) e o desacerto de algumas das sondagens e prognósticos eleitorais, resultantes, umas e outras, das contradições da globalização capitalista e dos diversos descontentamentos que provocam nas populações atingidas pela degradação das condições de vida, pelas guerras, pelo caos e terror crescentes, não estão fazendo diminuir, na conjuntura actual, esse poder conjunto do capitalismo, nem a sua manipulação sobre a generalidade das populações.
Um dos maiores sustentáculos da manutenção desse poder é a manipulação da opinião pública, quer ao nível nacional, quer no âmbito global, assumida com peso crescente pelos meios de comunicação social.
Se assim é, e se a esquerda radical tanto se lamenta deste pesadelo, porque é tão fragmentada e contraditória a sua resposta?
A facilidade de utilização da sempre nova tecnologia informática, o seu menor custo, a sua maior capacidade de expandir a comunicação, em vez de terem estimulado a acção conjunta das esquerdas radicais, partidárias e sociais, pelo contrário têm tido o efeito de potenciarem o individualismo pessoal ou de grupo, demasiadas vezes narcísico.  
Na origem deste efeito parece estar, em paralelo com a queda do Leste e a aparente falência do ideário comunista, constantemente vilipendiado, a influência muito grande que as ideias e a propaganda neoliberais mantêm sobre sectores significativos da esquerda, seja pela subversão da História e da actualidade, seja através de conceitos como a ascensão social pela meritocracia do indivíduo, o relativismo pós-modernista, a democracia, a liberdade, os Direitos Humanos, como valores abstractos esvaziados dos seus clarificadores conteúdos de classe.
Todas estas e outras amarras fazem com que a velha fragmentação das esquerdas radicais e dos movimentos com elas aparentados permaneça, sob a forma de grupismos mais ou menos estéreis, ou pela acção na maior parte do tempo isolada, ou sob rivalidades e disputas partidárias na maioria das vezes muito superiores às reais divergências políticas ou ideológicas que entre si existem.
A não ser este conjunto de factores o que impede o surgimento em Portugal de um meio de comunicação social que tenha o apoio e a colaboração da maior parte das forças partidárias da esquerda radical, dos sindicatos classistas, dos movimentos sociais ecológicos, feministas, de género, ou defensores do Estado social contra as privatizações e o austeritarismo?
Esta ampla colaboração não teria condições financeiras para sustentar um canal televisivo nacional de largo espectro, talvez até um jornal impresso, se tal se justificasse, ou pelo menos uma rede muito alargada de informação online? Não permitiria a existência de um corpo redatorial diverso e profissionalizado, capaz de investigação a sério e de informação rigorosa, contraponto visível e atractivo para a maioria da população e não apenas para as múltiplas minorias que coexistem mas raramente se somam?
Tal instrumento de trabalho não poderia ser uma forma de potenciar a acção colectiva de todos esses movimentos e de atenuar rivalidades e disputas, sem pôr em causa que cada um mantivesse os seus próprios pontos de vista e meios informativos?
E o mesmo se pode dizer para o espaço internacional, em primeiro lugar a Europa, onde as esquerdas radicais vivem, ou de costas voltadas, ou em tímidas e desconfiadas formas de colaboração política. E ainda mais tímidas e restritas no que respeita aos meios de comunicação social.
Assim o mostram, num recente exemplo, algumas das conclusões do 5º Congresso do Partido da Esquerda Europeia, que agrupa vários dos partidos integrantes do Grupo Unitário das Esquerdas com representação no Parlamento Europeu e outros partidos exteriores a este a grupo.
No que se refere aos seus meios informativos comuns essas conclusões satisfazem-se pelos pequenos avanços dados e quase só por continuarem a existir, ainda que com insignificante repercussão de massas e até desconhecimento pela maioria dos próprios filiados em cada uma dessas organizações.
Que esperam esses partidos e os seus dirigentes, que tanto se queixam da falência e hipocrisia da União Europeia e das suas instituições, do horrível crescendo das extremas direitas, e agora do terror maior do trumpismo, e das respectivas manipulações e influência sobre a opinião pública, para darem um salto em frente nas suas formas e meios de comunicação social e de se contraporem e fazerem frente a todos estes poderosos monstros?
Ao que parece, nem mesmo quando faz trovões se lembram de Stª Bárbara!

Artigo publicado no blog a contradição em 29 de janeiro de 2017.