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Ingénuas reflexões sobre a Paz

Reflito aqui algumas considerações e interrogações sobre os caminhos para a Paz no mundo. São considerações questionáveis na sua intenção generalizadora e que não aprofundam a complexidade e o conjunto de factores implicados nesses caminhos.

Mas este atrevimento resulta de ver a questão pouco abordada e muito pouco desenvolvida nas inúmeras análises, opiniões divergentes e críticas mútuas presentes em bastantes artigos produzidos individualmente ou por diferentes entidades da chamada esquerda radical. Nomeadamente, mas não só, sobre os conflitos no Médio Oriente e os efeitos deles resultantes como o crescendo de atentados e o drama dos refugiados.

A ideia óbvia para caminhar e chegar a uma paz mundial é pôr fim às guerras em curso e o não desencadeamento de novos conflitos. Também é óbvio que se está muito longe de alcançar estes objectivos. Mas quem queira alguma vez alcançá-los tem que os levantar – hoje – com toda a determinação e persistência.

Portanto, há que criar ou integrar movimentos, organizar protestos públicos, acções simbólicas, debates, com as palavras de ordem: 

a) Fim imediato das invasões militares a um país por forças armadas de outro ou outros!

b) Fim imediato dos bombardeamentos a um país por forças armadas exteriores a ele!

c) Paragem imediata dos conflitos militares entre dois países! 

d) Paragem imediata do conflito militar entre facções internas do próprio país (guerra civil, guerrilhas…)!

e) Paragem imediata da intervenção por forças armadas de um país contra o seu próprio povo (golpes de estado, repressão militar…)!

Para a suspensão ou fim destas várias situações as decisões a tomar serão:

a) e b) Cessar-fogo, retirada das forças armadas invasoras, negociações para a indemnização pelas mortes e destruições provocadas, outras punições sobre a potência ou coligação invasora ou que procedeu aos bombardeamentos.

c) e d) Tréguas com início ou retoma de negociações entre os países ou as partes beligerantes, retirada de forças militares ou outros apoios exteriores apoiantes de uma ou outra das partes, acordo de compensações mútuas para reparação pelas mortes e prejuízos provocados pelo conflito.

e) Fim das mortes e repressão, estabelecimento de todos os direitos políticos e das liberdades de expressão e organização, retirada de militares ou outros apoios exteriores ao poder repressor, julgamento dos responsáveis e compensações aos cidadãos e famílias afectados pela actividade repressiva.

Mas, observando a acção dos movimentos e dos partidos que em cada país ou internacionalmente levantam de modo independente ou desinteressado estas palavras de ordem e propostas de solução, verifica-se que a sua força e influência para as alcançarem são quase inexpressivas ou muito reduzidas. 

Pelo contrário, os governos, os poderes económicos, as instituições internacionais, os grupos militares locais ou ramificados que podem suspender ou alterar as guerras e conflitos em curso, são os mesmos que os promovem ou manipulam, em função de interesses próprios, que só se satisfazem com vitórias militares, com o domínio sobre outros países ou sobre os adversários internos. Ou que, nas situações de impasse, possam aumentar militar e economicamente a sua influência local ou regional. Ou ainda os que, em articulação com os interesses anteriores, necessitam que as guerras e os conflitos nunca acabem, para a manutenção do seu poder económico ou ideológico.

Excluindo alguns governos de uns poucos países, estes vários poderes, legais ou ilegais, sejam quais forem os seus pretensos credos políticos, quando levantam aquelas palavras de ordem, ou quando falam que desejam e trabalham para a Paz, fazem-no, não porque actuam de modo desinteressado para a alcançar, mas sempre de modo a manipular a opinião pública, a influenciarem ou neutralizarem as forças que se lhes poderiam opor ou contestar. E para com isso ganharem alguma vantagem política, económica ou militar.

Se a realidade actual é esta, então todos aqueles que anseiam por um mundo de Paz, os seus verdadeiros lutadores, não podem limitar-se à crítica a esses poderes como se a sua actuação resultasse de falhas, de indiferença ou de dúvidas, ou ainda, de concepções erradas mais ou menos involuntárias. E, ao contrário do que acontece na maioria das situações, também não deveriam reivindicar ou delegar nesses poderes que sejam eles a concretizar os meios e as medidas necessárias para a Paz.

Será por esta eventual falta de independência e de clareza estratégica, que os movimentos e partidos da esquerda radical, não levantam até às últimas consequências as palavras de ordem atrás propostas? E não o fazem tanto os que se deixam influenciar pelos argumentos e variantes do “mundo ocidental”, como os que veem nele o único grande inimigo a combater, depositando esperanças e até liderança numa Rússia soberana ou na China emergente.

Ou será porque aquelas palavras de ordem são desajustadas, ou estão mal formuladas, na sua intenção generalizadora em relação às várias guerras e conflitos actuais e aos seus possíveis desenvolvimentos?

Ou será antes porque, com todo o realismo, reconhecem a fraqueza e a incapacidade a curto e médio prazo de fazer impor essas palavras de ordem?

Seja como for, quem dará força, hoje, sem ilusões nos poderes instalados, a tantos outros objectivos complementares e motivadores das referidas palavras de ordem e do seu prosseguimento futuro?

- Desarmamento geral nuclear e militar. 

- Não participação de Portugal em manobras de pressão e confronto militares, nem em missões militares, mesmo que pretensamente “humanitárias”. 

- Saída de Portugal da Nato. 

- Saída das bases militares estrangeiras existentes em muito países.

- Fim da Nato e dos pactos militares entre potências internacionais. 

- Não à elaboração de uma “política comum” militar, nem à formação de um exército comum da União Europeia.

- Fim da venda de armas de guerra, seja aos grupos terroristas, seja aos países que não as fabricam e estão envolvidos em guerras. Fim da sua publicitação em feiras e outros eventos.

- Investigação e punição não só do tráfico ilegal de armas, como da venda ilegítima, desrespeitadora de numerosas resoluções da ONU e outras.

- Encerramento das fábricas de armamento militar. Sua reconversão para fins produtivos. (Se defendemos o fim da exploração dos hidrocarbonetos, o fim do agronegócio, as medidas contra o aquecimento global, esta reivindicação é igualmente justa e urgente).

- Resolução das guerras e conflitos militares apenas por meios pacíficos e diplomáticos, por medidas de pressão política e económica, como a campanha BDS contra Israel e o fim de trocas comerciais que sustentam as guerras de agressão e os grupos terroristas.

- Recusa do actual conceito de “comunidade internacional”, de instrumentos unilaterais como o Tribunal Penal Internacional e da manipulação da ONU pelas maiores potências mundias.

 - Denúncia do terrorismo de estado como mais perigoso, causador e utilizador do terrorismo dos grupos fanáticos.  

- Recusa da escalada do belicismo estatal e social. Fim das centrais de espionagem internacional. Fim da militarização e da privatização da segurança pública. Fim da generalização da vigilância electrónica sobre a população e do uso do estado de sítio e de emergência social como meios de proteção pública e combate ao terrorismo. 

- Sua substituição por medidas de combate às desigualdades, desenvolvimento e integração social, por uma segurança pública desmilitarizada e pedagógica. 

- Fim aos muros contra os refugiados e emigrantes (Hungria, EUA/México, etc.)

- Fim do Acordo com a Turquia sobre os refugiados. Reforço dos programas de acolhimento. Investigação e punição do tráfico humano. 

- Transformação das forças armadas em serviços civis de apoio e proteção à sociedade.

 

Artigo publicado no blog a contradição em 3 de janeiro de 2017.