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Qualificação Profissional na Hotelaria Não Evita Quebra de Qualidade dos Serviços

 

Ao contrário do que os responsáveis governamentais e empresariais do turismo algarvio propagandeiam, tende a diminuir a qualidade do serviço prestado e dos produtos vendidos aos turistas na generalidade das unidades hoteleiras da região. Esta é uma das principais conclusões da reunião havida no passado dia 11 de Junho entre a Direcção do Sindicato da Indústria Hoteleira, Turismo, Restaurantes e Similares do Algarve e o Grupo de Intervenção Laboral do BE/Algarve, a pedido deste. 

Tal facto ocorre sobretudo no ramo da hotelaria, nomeadamente na área do serviço alimentar, seja no nível do serviço prestado, seja na própria qualidade e apresentação das refeições. Neste caso há hotéis e cadeias de unidades hoteleiras que já não compram ou vão deixar de comprar quaisquer produtos alimentares na região e, além disso, terminaram com a confecção própria dos alimentos, preferindo a aquisição de comida já confeccionada que praticamente só necessita de ser aquecida antes de ser servida. Com este estratagema dispensam boa parte dos profissionais de cozinha como os cozinheiros (que são dos trabalhadores mais especializados e melhor remunerados) e outros; dispensando também boa parte do equipamento. Baixam os custos, mas é claro que a qualidade das refeições baixa também drasticamente.

Por outro lado, com a generalização da polivalência de funções e da precariedade do trabalho, muitas das tarefas específicas das diferentes profissões (barmans, empregados de mesas, recepcionistas, serviço de quartos, cozinheiros, etc.) são executadas diariamente por trabalhadores com qualificações que não correspondem às tarefas que executam, ou executando-as em condições deficitárias. Tudo isso baixa a qualidade do serviço. Um dos factores directamente responsável por esta quebra é ter sido posto fim ao chamado regime de densidades, ou sejam os quadros de pessoal que tinham de contemplar, consoante as características de cada unidade hoteleira, um número mínimo de profissionais em cada área de trabalho. A pressão para a polivalência e para baixar os custos laborais acabou com esse regime.

Afinal, para quem diz defender o turismo algarvio, a melhoria da sua qualidade e o seu crescimento com base nessa melhoria, a realidade e as opções tomadas são bem outras.

No entanto, segundo afirma o próprio sindicato, é bom o nível da maioria dos trabalhadores, cujas habilitações profissionais têm aumentado através dos sucessivos cursos da Escola Hoteleira e de outros cursos de formação. Porém, embora aumente a qualificação profissional da generalidade dos trabalhadores, a qualidade do trabalho prestado tende a diminuir devido aos factores atrás apontados. 

Ao que tudo indica, essa tendência ainda vai aumentar uma vez que se mantêm aqueles factores bem como cresce a precariedade do trabalho, tanto no ramo da hotelaria como no da restauração. Ano após ano vai-se reduzindo o número de trabalhadores efectivos face ao crescimento dos contratos a termo e do trabalho temporário. Sobretudo as grandes unidades hoteleiras aproveitam cada vez mais as empresas de trabalho temporário contratando-lhes os trabalhadores ao dia, consoante os dias em que têm mais acréscimo de clientes ou de serviços. Há trabalhadores que, embora trabalhando todos os dias da semana, vão variando quase todos os dias o local e as tarefas que executam.

Ainda por cima, muitas vezes, apesar de receberem à hora, oficialmente recebem o salário mínimo, a fim das empresas fazerem menores descontos para a segurança social e outras prestações. Mesmo assim os ordenados, em regra, são baixos e muitos trabalhadores vão trabalhar para Espanha ou mais longe; outros sujeitam-se a trabalhos duplos e longas jornadas muitas vezes à margem da lei. O desrespeito pela legislação é uma das características do sector, seja no ramo hoteleiro, seja na restauração, sobretudo quando os trabalhadores não são efectivos.

A pressão do desemprego e a alta do custo de vida desanimam a maioria dos trabalhadores de reclamar contra esse desrespeito. Também contribui bastante a quase completa inoperância dos serviços da Inspecção de Trabalho que o sindicato com frequência denuncia mas sem que se verifiquem melhorias.

Assim, embora a actividade turística e da restauração seja a área de maior emprego regional e em alguns aspectos relativamente bem paga, é uma actividade laboral difícil, de muita e crescente precariedade, que dá grandes dores de cabeça aos sindicalistas que procuram enfrentar os problemas e defender os direitos dos trabalhadores. 

Como um dos aspectos mais positivos da acção desenvolvida, o sindicato ressalta a recente conclusão da negociação do Contrato Colectivo de Trabalho (CCT), em que, apesar da negociação se ter arrastado por quase três anos, foi possível, para além da actualização das tabelas salariais, renegociar uma parte significativa do clausulado garantindo a não caducidade do CCT.

O Grupo de Intervenção Laboral do BE/Algarve