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Liberdade e sério

Intervenção na sessão comemorativa do 25 de abril na AM Faro.

 

Cidadãs e cidadãos do concelho de Faro.

Sr. Presidente da Assembleia Municipal

Digníssimas Autoridades

 

Cumprem-se quarenta e dois anos sobre a madrugada que tantos esperaram, sobre um primeiro dia inteiro e limpo. Cumpre-se aqui, e agora, a rotina de mais uma celebração da liberdade. As efemérides tendem a esconder-se em salas fechadas como esta, na rotina feita de palavras mais ou menos eloquentes, de gestos grandiosos ou  mesquinhos. Se a institucionalização entristece os corações mais afoitos é, paradoxalmente, a marca própria do triunfo das revoluções que foram cumprindo os seus objetivos, pois à liberdade tal como ao ar, só damos valor quando uma, ou outro, nos falta.

Um dia como hoje é também um dia de balanço, de olhar para trás, de perscrutar em frente. No concelho de Faro a população luta quotidianamente por uma vida melhor. Nesta casa da democracia institucional foram-se aprovando planos, orçamentos e licenças.

Parece que as finanças do Município vão melhor, mas a economia não! 

Parece que há em curso algumas obras, mas as infraestruturas e os espaços públicos vão-se degradando.

Parece que os recursos são escassos, mas serão as prioridades as corretas? O concelho, as freguesias rurais, a cidade precisam de obras, diz-se! Mas mais do que betão e asfalto, necessita-se de pão, trabalho e habitação.

Os recursos públicos têm de voltar a ser postos ao serviço da comunidade local, os serviços públicos têm de voltar às mãos dos poderes públicos, evitando todo o tipo de promiscuidade entre o interesse da comunidade e o interesse privado. E, também no espaço público, no território, deve o interesse da comunidade sobrepor-se a todas as formas de usurpação do mesmo pelos interesses privados ilegítimos quaisquer que estes sejam.

Eleitos e eleitores partilham responsabilidades na gestão do concelho. A democracia não se esgota dentro destas paredes, só de uma ampla participação cidadã e do diálogo franco poderão resultar:

Políticas ativas de combate à pobreza e aos seus efeitos;

Favorecimento dos setores da economia local que geram emprego;

O aperfeiçoamento dos serviços públicos que asseguram a igualdade de tratamento a todos os cidadãos do concelho.

Estas são as tarefas prioritárias para continuar a manter abertas as portas que abril abriu, e a que os diretórios neoliberais têm tentado por trancas, pois parafraseando a canção:

Só há liberdade a sério quando houver 

A paz, o pão 

habitação 

saúde, educação 

Aos Farenses, aos Portugueses, aos Europeus, a todos os que amamos a liberdade, a democracia, não nos resta outra alternativa senão juntar forças contra o governo de ninguém! O governo de ninguém, aquele em que ninguém é responsável pelo resultados desastrosos das suas políticas, é o governo dos tecnocratas sem rosto, que não tendo sido eleitos nos impõe o pensamento neoliberal a partir de Bruxelas e Frankfurt.

No dia em que celebramos a liberdade e apenas a título de exemplo, permitam-me homenagear alguns que dela vêm sendo privados:

Domingos da Cruz, José Gomes Hata, Hitler Samussuku, Albano Bingo Bingo, Sedrick de Carvalho, Arante Kivuvu, Inocêncio de Brito, Benedito Jeremias, Nito Alves, Laurinda Gouveia, Rosa Conde, Nuno Dala, Nelson Dibango, Afonso Matias “Mbanza Hamza”, Osvaldo Caholo, Fernando Tomás “Nicolas Radical”, e Luaty Beirão.

Não só aqueles e aquelas que estão fisicamente presos se encontram privados de liberdade,  a esta lista, à que juntar os que no concelho de Faro estão a ser submetidos a uma das mais ignóbeis formas de privação da liberdade, a negação do direito ao trabalho. Estes podem ser personalizados nos rostos dos cinquenta trabalhadores da  em vias de perder o seu posto de trabalho no aeroporto de Faro.

Recordem os três últimos versos.

Só há liberdade a sério quando houver 

Liberdade de mudar e decidir 

quando pertencer ao povo o que o povo produzir

 

Viva Faro

Viva o 25 de abril

Viva a República